Por Jana de Paula
Vamos falar sobre anjos. Anjos são, de fato, um tema recorrente ao longo dos séculos de história escrita e oral. Anjos surgem, impávidos ou cruéis, nos chamados livros sagrados em que se baseiam as religiões do mundo. São encontrados em abundância nos textos apócrifos, cabalísticos, xamânicos, ocultos. Ou vêm estampados nos manuais de magia, alquimia, cadernos de orações, simpatias e feitiços. Há também os baralhos de anjos e os cadernos das horas dos anjos. Apresentam-se negros e chifrudos; ou translúcidos e coroados ... bebês gorduchos ou figuras com ares sisudos. Anjos armados, vingadores, redentores, pacificadores, guardiães ... A lista dos tipos angelicais é comprida demais para ser esgotada.
Nunca, em
qualquer era da história, os anjos foram esquecidos ou substituídos ... Nos
primeiros séculos da Era Cristã os anjos chegaram mesmo a ser tratados como
negócio de estado, catalisadores de concílios; e quem os defendeu acabou em
masmorras escuras e sofreu tortura e morte infame. Mas, o interesse por anjos
jamais foi exclusividade do cristianismo. Em todas as religiões e ritos, há
seres que servem de mensageiros entre homens e deuses, quando não são eles
próprios deuses por si mesmos. E, alados ou não, sempre dispõem de habilidades
superiores às humanas e são praticamente invencíveis.
Hoje em dia,
embora muitos ainda se maravilhem com os anjos, é mais fácil encontrar figuras
com suas características nos personagens das estórias em quadrinhos. Paladinos
da justiça, cyborgs, bestas ferozes, humanos vítimas de erros químicos ... O
fato é que sempre colocam os anjos numa esfera acima ou além da humana.
Mas, há um
tipo de anjo que todos estes outros - miríades e miríades, legiões, coro,
corte, falange - veneram. É o anjo encarnado. O anjo humano. É o mais difícil
de ser identificado porque, em geral, nem mesmo ele sabe que é anjo. São anjos
que andam por aí, camuflados de si mesmos. São rejeitados, escorraçados,
injustiçados e - o pior do pior -, defendidos, vitimados, usados como exemplos
do sofrimento, do vício, da perdição.
Sabe aquele
parente alcoólatra que dá vexame em todas as festas? Ele é um anjo (saiba disso
ou não). Ele está aí para carregar de uma vez por todas a carga de toda a sua
família, por gerações a perder de vista. Esta aí para tirar a nódoa de tantos
atos cometidos pelos seus ancestrais, atos estes que, em geral, não constam da
árvore genealógica, mas foram praticados no mais absoluto sigilo contra seres
indefesos e ficaram sem solução, latejando por aí...
Quem sabe
você não tem uma amiga, ou amiga do amigo da amiga que é promíscua.
Extremamente promíscua. Em cuja comparação personagem feminina de Nelson
Rodrigues é virtuosa. Ou ouviu falar do primo de um conhecido que contou para o
porteiro do prédio em frente de uma jovem absolutamente casta, que suprime
qualquer desejo de seu corpo, que não conhece uma sensação ardente. Pois tanto
uma quanto a outra são anjos humanos. Elas libertam uma multidão de outros
humanos da energia de estupros, incestos, torturas sexuais, torturas psicológicas
etc.
Alguém de
suas relações, numa mesa de bar, talvez tenha contado uma história sobre um
humano - homem ou mulher, jovem ou criança - que por anos a fio serviu de
capacho para toda uma família. Esta pessoa foi espancada, abusada, usada como
isca, humilhada, roubada, enganada, sugada e, obviamente, criticada. Outro
exemplo típico de anjo humano.
O parente
com problemas mentais, a mãe amantíssima, o jovem drogado são todos anjos
humanos lambendo as feridas da humanidade, casquinha por casquinha. E neste
início de milênio, muitos dentre eles começam a ter vislumbres desta
característica angelical e ficam sãos. É de fato um tempo em que os cegos vêm e
os coxos andam. Estão aí todos estampados nas notícias desta mídia sedenta,
faminta.
Deixei um
dos tipos mais interessantes para o final. É aquele anjo que abdica quase
totalmente da humanidade que poderia usufruir aqui na Terra. Entre tantas
opções de encarnação, escolhe as inimagináveis. É a criança famélica. O mendigo
fedorento e desdentado. A prostituta do último degrau da infâmia. São aqueles
para quem as leis dos homens não existem. São os absolutamente esquecidos.
Aqueles que nem nos becos são aceitos. Os que estão encerrados em prisões
distantes, inocentes de todos os crimes. Aqueles que compõem aldeias inteiras
de flagelados e esfomeados. As meninas que têm seus clitóris cortados e cujas
lágrimas ninguém vê.
Ou são seres
que vivem por alguns meses, alguns dias, alguns minutos, alguns poucos
segundos, apenas para sorrir para os pais e, com esse sorriso, dizer:
"Está tudo bem. Confia".
Esses anjos
humanos não pedem cura, piedade, redenção. Não clamam por justiça. Não arrojam
a seus pés exércitos inteiros, abatidos pela culpa. Nem vão, como espectros,
cutucar a pseudo consciência dos que fazem justiça e obrigam o cumprimento da
lei, enquanto tentam dormir, pobres anjos, eles também, carregando nas costas
as falhas alheias. Não querem a dor ou o sofrimento de ninguém. Não são
encontrados por 'benfeitores da humanidade' que tiram fotos 'humanitárias' ao seu
lado para angariar fundos para alguma poderosa instituição de 'caridade'.
Eles
simplesmente existem. Por livre escolha, por espontânea vontade decidiram
vestir essa fantasia, envergar este personagem e viver em todas as suas nuances
este papel esquecido por Shakespeare. Como párias eles descem até este pequeno
planeta, mas de nós só desejam uma coisa - que os honremos. E a cada
experiência deste tipo, tanto lodo é removido, tanta sujeira varrida, tanto
ódio extinto que não é de se admirar, que descido o pano, sejam vistos como
são: fiéis e verdadeiros.